Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

"Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia."



Assim falava Miguel Torga...

Quis escolher excertos. Retalhar o texto e escancarar aqui aquelas frases que nos comovem ao ponto de nos incomodarem. Mas elas sucedem-se sem pararem.
Este texto é o retrato de um povo e da sua terra, tão fiel quanto um retrato de um povo e de uma terra, tão gloriosos como estes, pode ser. E eu lembrei-me que “os que ficam” e “cavam a vida inteira”, estes que “não têm medo senão da pequenez”, podem por vezes, à custa da enxada que carregam todo o dia, esquecer o quão grandiosos são o seu povo e a sua terra.

Por isso...Aos meus avós.

"Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.
A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia.
O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei."


Para ver: O Reino Maravilhoso de Miguel Torga

Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

Sobre a guerra civil espanhola. Ou sobre a Guerra.

"Nada alimenta o esquecimento como uma guerra, Daniel. Todos nos calamos e as pessoas esforçam-se por nos convencer de que aquilo que vimos, aquilo que fizemos, o que aprendemos de nós próprios e dos outros, é uma ilusão, um pesadelo passageiro. As guerras não têm memória e ninguém se atreve a compreendê-las até não haver vozes para contar o que aconteceu, até chegar o momento em que já ninguém as reconhece e regressam, com outra cara e outro nome, para devorar o que deixaram atrás. (...) Quando finalmente a paz chegou, cheirava àquela paz que enfeitiça as prisões e os cemitérios, uma mortalha de silêncio e vergonha que apodrece sobre a alma e nunca se vai. Não havia mãos inocentes nem olhares brancos. Os que lá estivemos, todos sem excepção, ficaremos com o segredo connosco até à morte."


A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón [pp. 444-445]

Víctor: An Unfinished Song

Víctor Jara fez da música a voz do seu povo, daquele que era vítima da pobreza e da fome. As suas canções foram uma arma política que acabariam por determinar a sua própria morte. Víctor morreu às mãos do monstro contra o qual lutou. Em 1973, após o golpe militar de Pinochet, foi capturado, torturado e fuzilado. Nunca viria a conhecer aquele que foi um dos períodos mais negros da história do Chile, cujo grande responsável descansa hoje em paz. Se vivo, veria defraudado o futuro que sempre idealizou para o seu país.
Não se deve falar da vida de um grande homem em tão poucas palavras, eu sei. E às vezes os livros também podem não ser suficientes. Mas fica a sugestão:

Canção Inacabada - a Vida e Obra de Victor Jara, de Joan Jara

Domingo, 22 de Agosto de 2010

Não sei escrever poesia. Não conheço as suas palavras. Mas desde sempre que julgo saber senti-la. Sei como sabe aquele arrepio que desvanece muito lentamente, sem nunca realmente desaparecer, porém sem nunca realmente voltar a repetir-se.  Eu reconheço essa luz, esse estado de clarividência irracional, como também conheço o gosto da sua fugacidade. 
E por julgar que sei senti-la (não quero confessar que tenho a certeza), os teus olhos parecem-me poesia. Não sei o que significam, não sei explica-los, não conheço as tuas palavras. Mas conheço o gosto deste arrepio, desta luz e desta fugacidade. Sim, os teus olhos são poesia. Agora que os sinto, sei que, desde sempre, soube senti-los. Como a poesia. Mas, parece-me e quase posso jurar, que a luz dos teus olhos dura mais tempo.

"Contra o Muro"

No Museu de Serralves, Marlene Dumas expõe pinturas de coisas que separam os homens, pinturas que a partir da fotografia ambicionam tornar-se imagens reais. E que, por isso, confrontam a indiferença e a imaginação do espectador. O motivo é o conflito entre Israel e a Palestina e a exposição chama-se "Contra o Muro". [Ipsilon]

The Mother

Wall Weeping


Figure in a Landscape
 

O fim da ausência

E eu quero festejar assim:

Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

Viajar

"Viajar também pode ser ir andando com as pernas às costas; sair dos carris; querer ser esquecido por todos e caminhar lá em cima. Entre as nuvens.
(...)
Viajar é caminhar com regras aceitando que é a excepção que valida a regra. E a excepção pode ser cair, desamparado, algures no leito de um rio e, na ponte entre a vida e a morte, aceitar que nem todo o perdão é possível..."

in "Pare, Escute, Olhe" (texto de Jorge Laiginhas, fotografia de Leonel de Castro)